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Filmes e Álbuns de 2018

Queria ter feito uma lista dos 10 melhores livros que li em 2018, mas não cheguei a ler 10 livros em 2018. Para alguém que se diz escritor, a situação é bem embaraçosa. Mais um ano termina e, além de sentir que não vi os melhores filmes lançados (nem sequer fui atrás dos clássicos) e fiquei preso aos mesmos artistas da música de 2017, 2016, 2015, 2014, sem qualquer ânimo para a novidade, não ampliei meu repertório, não experimentei peças ou museus, estive cautelosamente seguindo a mesma cartilha de hábitos culturais de quando eu tinha 14 anos.


Filmes

10. Where Is Kyra? (2017)

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Esse filme singelo, dirigido pelo nigeriano Andrew Dosunmo, foi a volta que Michelle Pfeiffer merecia. Nossa eterna mulher-gato dessa vez entrega uma personagem nada heróica ou sensual. Kyra é uma mulher desempregada que, após a morte da mãe idosa, resolve se passar por ela e continuar recebendo a aposentadoria/pensão a que a mãe tinha direito enquanto viva. O filme é de um suspense claustrofóbico e a atuação de Pfeiffer preenche cada segundo da projeção até alcançar seu ápice num final de roer as unhas, puxar os cabelos ou morder as bochechas.

9. Hilda Hilst Pede Contato (2018)

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O único filme nacional da lista é uma mistura de documentário e ficção sobre a incursão de Hilda Hilst no universo metafísico dos fantasmas. A partir de gravações de áudio, entrevistas e depoimentos, a jovem Gabriela Greeb constrói uma obra de beleza plástica e sonora, que, apesar da subjetividade de seus temas, revela de maneira concreta a persona de Hilda. Revela também a Casa do Sol, a residência onde Hilst passou seus últimos anos, que é também um centro de estudos da alma e o sonho de praticamente qualquer escritor metido a heremita.

8. A Esposa (2017)

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Glenn Close é a esposa de um bem sucedido escritor que está prestes a receber o prêmio Nobel de Literatura. Fui assistir achando que já conhecia a história, da esposa, da mulher, da companheira que está sempre atrás (nunca ao lado) de um cara babaca. Caí do cavalo e acompanhei um dos filmes mais envolventes e intensos do ano, cuja trama se desenvolve de maneira convencional, mas, ainda assim, surpreendente. Se a Glenn Close não levar o Oscar dessa vez, nunca mais leva.

7. Oitava Série (2018)

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O diretor desse filme tem 28 anos de idade (um ano a mais que eu e provavelmente vai ser indicado ao Oscar de Roteiro Original) e talvez por isso, ele consiga falar de juventude sem o distanciamento que é tão comum no cinema norte-americano. Kayla é uma menina de 13 anos com todas as espinhas, inseguranças e vícios de uma menina de 13 anos. Também parece que já vimos esse filme antes. A novidade está justamente no recorte de época. A comunicação mudou e as redes sociais aparecem no filme como um personagem. Além disso, a fotografia monumental transforma cenas simples como “crianças brincando na piscina” em verdadeiras sequências de horror. Elsie Fisher, a atriz mirim que interpreta Kayla, entrega não um personagem, mas uma pessoa.

6. A Balada de Buster Scruggs (2018)

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O filme novo dos irmãos Coen segue o mesmo padrão de produções como Relatos Selvagens e Sete Psicopatas e um Shih Tzu: cinco ou seis histórias que se conectam apenas no plano temático. O legal deste é que todos os “curtas” se passam no velho oeste, então você pode esperar por duelos de pistola, assalto a bancos, corrida do ouro, ataque indígena e tudo muito bem filmado, porque estamos falando dos Coen (o que também garante sua dose de existencialismo e niilismo). Ouvi alguém reclamando do filme ter sido encomendado pela Netflix num esquema de reaproveitamento de ideias, mas até isso os Coen conseguiram ironizar em uma das suas histórias.

5. Hereditário (2018)

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Foi o filme de terror do ano. Sem precisar se afastar muito de uma família nuclear, Ari Aster consegue desenterrar nossos medos e preconceitos mais profundos e manter o interesse em uma trama que se torna a cada minuto mais desagradável de acompanhar. É um filme de fantasma, é um filme de família e é também um filme de atuação. Toni Collette merece todos os prêmios, mas é Alex Wolff quem surpreende e entrega um dos personagem mais ricos e sombrios do ano.

4. Tully (2018)

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Como sou fã do Jason Reitman, talvez esse parágrafo seja só uma longa desculpa para justificar a 4a posição de Tully. Das pessoas mais próximas que assistiram ao filme (porque eu indiquei pra todo mundo), nenhuma gostou tanto. Já eu fiquei absolutamente maravilhado. Não só pela atuação de Charlize Theron (que está hilária de exausta, derrotada e destruída, como uma mãe de 3 filhos), mas pela construção perfeita de cenários, closes e trilha sonora, que já é meio que uma marca do Jason Reitman. Talvez o melhor filme sobre maternidade que eu já tenha visto. E ainda tem plot twist.

3. Em Chamas (2018)

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O que poderia ser lido como mais um filme de triângulo amoroso, é na verdade o retrato exato e melancólico de uma juventude confundida por seus próprios desejos. Com três atores extremamente afiados, um texto poético e uma fotografia contemplativa, esse filme sul-coreano oferece um mergulho (não vá esperando um mergulho fácil) na sexualidade humana e nas origens do que comumente chamamos paranóia. Yoo Ah-In, além de ser lindo, entrega uma interpretação discreta, quase hormonal.

2. Trama Fantasma (2017)

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Não é o único filme dessa lista sobre relacionamentos abusivos, mas com certeza é o que traduz de forma mais elegante esse nada charmoso vício social. Daniel Day-Lewis, obviamente, está perfeito, mas não é ele quem mais brilha no longa. São três atuações femininas (Vicky Krieps, Lesley Manville e Julie Vollono) que movimentam e fazem da Trama Fantasma um desses clássicos instantâneos. Tanto pelo primor  técnico (trilha sonora, fotografia, figurinos… nenhum defeito) quanto pela coragem de ir até o fim na representação de um tema tão difícil.

1. Me Chame Pelo Seu Nome (2017)

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Luca Guadagnino era um diretor que já tinha me causado forte impressão (com seu The Bigger Splash, um filme absolutamente prazeroso), mas que agora, com Me Chame Pelo Seu Nome, consolida-se como o mestre da atmosfera rica/nostálgica de veraneio. Seu cinema é contemplativo sem isolar demais a poesia da narrativa. Todos os silêncios e momentos de regozijo, seja pela arte (com o piano e a literatura) ou pela natureza (com o vôlei na areia e os banhos de rio), acrescentam ao enredo (e aos personagens) camadas cada vez mais interessantes. Como filme de romance, Me Chame Pelo Seu Nome esbanja uma sensualidade de sabor afrutado, tem a temperatura de uma pele queimada de sol, mas nunca se torna vulgar ou reduz os personagens ao seu desejo sexual.

Menções honrosas:

120 Batimentos por Minuto (2017)
O Beijo no Asfalto (2018)
Boogie Nights (1997)
A Casa que Jack Construiu (2018)
Detroit em Rebelião (2017)
Em Pedaços (2017)
Eu, Tonya (2017)
First Reformed (2017)
A Forma Da Água (2017)
Guerra Fria (2018)
Ilha de Cachorros (2018)
Julieta, Nua e Crua (2018)
Um Lugar Silencioso (2018)
Mandy (2018)
Nasce uma Estrela (2018)
Pequena Grande Vida (2017)
Projeto Flórida (2017)
Roda Gigante (2017)
Roma (2018)
Thelma (2017)
Três Anúncios para um Crime (2017)
O Sétimo Selo (1957)
The Square: A Arte da Discórdia (2017)


Álbuns

10. A Pele do Futuro – Gal Costa (2018)

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Gal Costa fez esse ano um álbum triste, mas não sofrido; maduro, mas não entregue. Queria muito saber quem compõe pra ela, porque algumas letras, como Palavras no Corpo, conversam de igual para igual com clássicos de Caetano ou Gil. É muito bom que Gal Costa ainda produza música de qualidade. Os agudos não estão mais tão agudos, é verdade, a voz de mocinha envelheceu; mas sua música acompanhou o ritmo, como aquelas senhoras que vestem não só sua idade mas seu orgulho de terem vivido isso tudo.

9. No Shame – Lily Allen (2018)

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Estava um pouco desiludido com a Lily Allen desde aquele último CD-bomba cujo título não quero nem ter o trabalho de pesquisar. Felizmente, No Shame é muito superior ao seu antecessor e, além disso, revigora a música de uma artista que a gente já vinha dando como morta. Além dos raps, em músicas como Trigger Bang Allen se aproxima de um psicodelismo totalmente encaixado com nossos tempos. O hype está de volta.

8. Isolation – Kali Uchis (2018)

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Revelação do ano, essa latina mostrou que sabe exatamente onde quer chegar com um álbum de estreia cremoso, quente e sonoramente inovador (tanto para o pop internacional quanto para a música latina). Tyrant é um hit que ainda vamos escutar por muitos e muitos anos, Body Language poderia facilmente aparecer na próxima novela do Manoel Carlos, mas é Nuestro Planeta que traduz com perfeição exata a atmosfera da colombiana.

7. Saturn – NAO (2018)

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Segundo álbum da NAO e segundo álbum maravilhoso da NAO. Desta vez ela demonstra ainda mais segurança na concepção das faixas, que ganham complexidade e ritmo. Love Supreme é irresistível, Another Lifetime dá vontade de cantar junto e dessa vez até música com meu nome ela fez.

6. Champagne Eyes – AlunaGeorge (2018)

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Teoricamente este não deveria estar na lista de melhores álbuns do ano, porque são só 6 músicas que a dupla AlunaGeorge lançou em formato de EP, mas todas as músicas são tão incrivelmente boas e passei tanto tempo pulando de uma pra outra, que seria desonesto fingir que não foi um dos 10 melhores álbuns do ano pelo menos pra mim. É difícil justificar a simpatia por alguns artistas. Eu poderia falar da batida eletro-africana e das letras imperceptivelmente melancólicas, mas não quero ficar justificando um amor que parece não ter razão.

5. Registros a Meia Voz – Marina Lima (1996)

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Graças a um amigo de gosto refinadíssimo ouvi alguma coisa esse ano que não fosse de 2018. E descobri Marina Lima, até então um nome que me remetia a MPB antiga e, claro, Fullgás. A versão de Fullgás desse álbum, entretanto,  não entrega o que a gente quer, modifica o ritmo, altera o compasso e em vez de um ápice, entrega um silêncio.

4. Alice – Alice Caymmi

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A Rainha dos Raios chega agora ao seu terceiro álbum de estúdio. Já consolidada como uma voz jovem, de arranjos modernos, Alice agora assume a anti-diva que, cuidadosamente, construiu. O amor é algo de que se deve fugir. Em A Estação esta fuga é também carinho; em Sozinha, deboche.

3. Treehouse – Sofi Tukker (2018)

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Não gosto de música eletrônica. Talvez por isso tenha curtido tanto Sofi Tukker. A repetição cansativa de graves e tambores aqui nunca cansa. E, além disso, a duplinha às vezes joga umas letras, que, boas ou não, fecham a métrica. Drinkee vem tocando aqui em casa desde 2017, agora, pelo menos, tenho também Best Friend, Batshit e My Boddy Hurts pra revezar.

2. Sinto Muito – Duda Beat (2018)

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Aqui pelo Brasil, foi o nome que mais me impressionou. Bixinho me pegou de primeira, graças às recomendações do Spotify, e desde então tenho ouvido esse álbum com insistência obsessiva. O eletro-brega aqui conta, além de uma produção caprichada, com letras contemporâneas que elevam a dor de cotovelo ao nível psicotrópico. Derretendo, por exemplo, combina sotaque, grave e poesia, num hit dançante.

1. So Sad So Sexy – Lykke Li (2018)

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No fundo, no fundo mesmo, escuto música para chorar. Esse álbum foi a tristezinha do verão passado e, desde então, sempre que me acontece de escutar alguma música, ainda sinto um pouco do sal de uma lágrima que já secou. deep end (porque todos os títulos foram grafadas com minúsculas) é talvez a melhor música da Lykke Li desde I Follow Rivers (com certeza é o melhor clipe).

Singles e EPs:

Preta da Quebrada pt. 2 – Flora Matos
Piloto – Flora Matos
Say Goodbye – Jaloo
Céu Azul – Jaloo
Koppis Elevator – Koppi Mizrahi
One Kiss (with Dua Lipa) – Calvin Harris
Joana Dark – Ava Rocha
Anna Wintour – Azealia Banks
Fitness – Lizzo
Barbie Tingz – Nicki Minaj
Divany no Beat – Luanna Exner
Tu Gosta Não Gosta? – Jaula das Gostosas
Não Encosta – Ludmilla
Fuleragem – MCWM
Bumbum em Chamas – Ranger Amarela e Inês Brasil
I Like It Like That – Detox
Caçamba Fashion – Ellen Milgrau

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